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Apagamento da memória e do cenário urbano

Por Bruno Gobi

Publicado originalmente no Jornal de Jundiaí em 22.12.2021


Já sabemos da importância de um bem histórico vivo, com usos e atividades para a cidade. Isso vem sendo bem discutido atualmente e é necessária esta consciência cultural, pois é através dela que são estabelecidas ações coletivas da população para denunciar e resgatar construções históricas, que mesmo às margens do olhar da sociedade, também fazem parte do contexto e do cenário urbano, e precisam de atenção.


As identificações dos Bens precisam ser feitas por todos os agentes que compõem uma sociedade: das comunidades locais até os órgãos municipais, estudais e federais. É fundamental reconhecer a importância de cada edifício, identificar sua história e entender como preservá-los. Isso garante que essa educação cultural seja passada adiante e se torne trivial.


Quando essa identificação é feita rapidamente, é possível evitar um possível apagamento histórico, uma possível demolição exacerbada. Lembro aqui – dentre tantas outras tragédias – da antiga fábrica de tecelagens Japy na Vila Arens, para qual colaborei para o restauro e novo uso.


Acontece que a fábrica carrega consigo a construção imigrante no Brasil e as marcas históricas da exploração de mulheres e crianças no início do século XX que, consequentemente, motivou a Primeira Greve Geral do País, em 1917, feita por essas operárias, em união com todas as tecelãs do estado, com reivindicações ao aumento salarial, ao fim da exploração do trabalho infantil e a diminuição da carga horária de trabalho – que, até então, era de 16 horas diárias.


No início dos anos 2000, por conta da especulação imobiliária, a fábrica foi quase totalmente demolida. Esta, que já havia sido listada no inventário de Bens históricos de Jundiaí, teve sua chaminé, seu último módulo e sua fachada principal salvos por ação coletiva da população que, através de muitas denúncias, conseguiram impedir o apagamento histórico por completo.


Em seguida, a fábrica foi definitivamente tombada pelo Conselho de Patrimônio Cultural de Jundiaí, COMPAC, e em 2019, o escritório de Eduardo Carlos Pereira foi contratado para o restauro e novo uso do seu remanescente. Além da salvaguarda do bem, resultante da obra de conservação, o restauro resgata a memória das tecelãs e crianças exploradas.

Estas histórias, que já estavam escondidas em Jundiaí e prestes a virar entulho, foram recuperadas junto ao edifício em um projeto cheio de significados e com respeito ao Bem histórico.


A obra finalizada foi apresentada no último domingo (18) para a população, agora como “Fábrica das Infâncias Japy”, que discutirá, através de diálogos e atividades infantis, as políticas públicas da cidade. Por consequência das ações populares, agora Jundiaí ganha um novo edifício para uso da população.


Se já existe, ou pelo menos há consciência da salvaguarda do patrimônio, entende-se por este autor que estas reflexões devam expandir-se para além dos edifícios reconhecidos historicamente ou pelos conselhos.


No contexto geral da cidade, há construções sem relevância cultural direta, mas que são traços de um fazer que se perdeu. Os centros e as áreas rurais são repletos destas construções que contam a história dos imigrantes, das olarias de barro, dos artificies e tantos outros, mas que pela falta de reconhecimentos individuais são completamente apagadas. Por um modismo que muitas vezes considera materiais atuais de baixa qualidade em reformas que descaracterizam totalmente essas construções, é ignorada qualquer chance de manter algum traço do que já foi aquilo um dia.


Do que pode ser feito pelas leis, pelos planos diretores e cartas patrimoniais é exigirmos como cidadãos que se cumpram as normas e diretrizes de salvaguarda, que sejam sistematicamente identificadas e mapeadas essas construções e que sejam disponibilizadas cartilhas e instruções à população para conscientizar cada vez mais a importância cultural e histórica destes edifícios, para que cada vez tenhamos mais pessoas engajadas e com olhar atento ao que acontece na cidade. Assim, poderemos salvar tantos outros patrimônios – reconhecidos ou não – da nossa cidade.







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